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Trocar apenas a pasta térmica consegue salvar um i7 antigo do throttling?

Um i7 de geração antiga travando em jogos leves não precisa ser descartado: descobri que a troca da pasta térmica secada reduziu a temperatura em 35°C e eliminou os desligamentos repentinos.

Carlos Eduardo Mendes
Carlos Eduardo MendesEditor de Hardware e Infraestrutura6 min de leitura

Atendi recentemente um caso que, à primeira vista, parecia o fim da linha para um desktop de oficina. O dono reclamava que a máquina, montada em 2016 com um i7-6700, estava desligando do nada no meio do trabalho e até travando ao abrir o Google Chrome com muitas abas. A suspeita inicial dele — e de muita gente — é que o processador "queimou" ou que a fonte de alimentação já não aguentava o tranco. Porém, após ligar o HWiNFO64 e rodar um teste rápido, vi que o problema era térmico e puramente de manutenção: a pasta térmica virara um pedra.

Muitos usuários brasileiros prolongam a vida útil de PCs de 5 ou 6 anos pensando que hardware funciona como geladeira, durando para sempre sem intervenção. Processadores gerenciam consumo via frequência, e quando esquentam demais, o mecanismo de proteção da Intel entra em ação. O que chamamos de "travamento" muitas vezes é o throttling severo, onde o clock cai de 3.4 GHz para algo perto de 800 MHz para não derreter o silício. Em vez de gastar dois mil reais em uma placa-mãe nova e um processador atual, a solução aqui custou cerca de R$ 35 e uma hora de paciência.

Por que o PC desliga no meio de uma partida?

O sintoma mais óbvio não era apenas o calor, mas a aleatoriedade dos desligamentos. Em tarefas simples, como digitar no Word, o cooler girava baixo e tudo parecia normal. Mas ao abrir o CS2 ou renderizar um vídeo no Premiere, a tela apagava em menos de três minutos. Monitorando as temperaturas, vi que o núcleo do i7 atingia instantaneamente 100°C (limiar térmico dessa geração) e o sistema operacional cortava a energia para evitar danos físicos.

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O diagnóstico apontou para a degradação do material térmico interfaceado entre o IHS (Integrated Heat Spreader, a tampa metálica do processador) e o cooler. Com o tempo — e neste caso eram quase dez anos — a pasta à base de silício perde a capacidade de transferir calor, secando e criando bolsões de ar. O ar é um isolante térmico terrível. O cooler soprava ar quente, mas não conseguia puxar o calor do die do processador porque a "ponte" estava quebrada.

O diagnóstico técnico revelou um problema de manutenção

Antes de comprar qualquer peça, é crucial validar a hipótese. A política editorial do Dicastech exige evidências reais, e eu não iria apenas trocar a pasta e torcer para dar certo. Abri o gabinete e desconectei o cooler. Ao removê-lo, a pasta estava endurecida, com a consistência de giz quebradiço, e grudada nas laterais do processador. Isso é um sinal claro de que a transferência térmica estava ineficiente.

Para a limpeza, usei álcool isopropílico 92% e cotonetes. No Brasil, nem sempre é fácil encontrar o isopropílico puro em farmácias comuns, então recomendo buscar em lojas de produtos químicos ou informática de confiança. O álcool de 70% funciona, mas evapora mais rápido e deixa um pouco de resíduo. O segredo aqui é insistir nas laterais do IHS e na base do cooler até que o metal fique brilhante novamente.

AVISO DE RISCO: Antes de remover o cooler, desconecte o cabo de força da tomada. Trabalhe com a máquina desligada e descarregue a eletricidade estática do seu corpo tocando em uma parte metálica do gabinete. Aplique força apenas nas travas do cooler, nunca na placa-mãe, para não quebrar soquetes ou trilhas.

A escolha da pasta térmica: gel de silício versus metal líquido

Fiquei tentado a aplicar metal líquido (como o Thermal Grizzly Conductonaut) porque a condutividade dele é brutal, chegando a 73 W/mK. Porém, o metal líquido é eletricamente condutivo e, se escorrer para os capacitores da placa-mãe ou para os resistores próximos ao soquete, causa um curto-circuito instantâneo. Como era uma máquina de trabalho e não um experimento de overclocking extremo, optei por algo mais seguro e eficiente: uma pasta híbrida de alta performance, a Arctic MX-6.

A MX-6 não é condutora de eletricidade, o que erradica o risco de curto. Ela oferece uma vida útil de cerca de 8 anos e uma condutividade térmica de 8 W/mK, muito superior à pasta genérica que vem em coolers de entrada (geralmente abaixo de 3 W/mK). O custo-benefício imbatível para um i7 dessa geração torna essa escolha mais lógica do que arriscar o hardware inteiro com ligas de índio e gálio.

Apliquei o método do "grão de ervilha" no centro do processador. Não é preciso espalhar com um cartão, a pressão do cooler ao ser aparafusado cuida da distribuição uniforme. A chave aqui é o aperto: os parafusos do cooler devem ser cruzados, apertando um pouco de cada vez, para que a pressão seja igual em todos os cantos. Isso evita que a pasta acumule de um lado e crie uma camada grossa (o que também atrapalha a condução de calor).

Validando a reparação com o Cinebench R23

Depois de montar tudo de volta, não adianta apenas ligar e achar que "parece mais silencioso". É preciso estressar o hardware para garantir que o throttling sumiu. O teste padrão da indústria para isso é o Cinebench R23, uma ferramenta que coloca 100% de carga em todos os núcleos da CPU por um período prolongado.

Antes da manutenção, o teste mal começava e o PC desligava. Após a troca da pasta e uma limpeza geral nas ventoinhas, rodei o Cinebench por 30 minutos. Os resultados foram conclusivos:

  1. Temperatura Máxima: Caiu de 100°C (desligamento) para estabilizar em 65°C sob carga total.
  2. Frequência: O clock manteve-se firme em 3.8 GHz (turbo boost) sem oscilações bruscas.
  3. Score: O placar de desempenho subiu, pois o processador não estava mais perdendo performance para se proteger.

Esses 35 graus de diferença são a linha tênue entre um PC inutilizável e uma máquina produtiva. Se você usa o PC para trabalho remoto, jogos ou edição, essa manutenção deve entrar na rotina a cada 3 ou 4 anos, dependendo da pasta usada. O calor é o maior inimigo dos componentes eletrônicos, e a solução muitas vezes é mais barata do que imaginamos.

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A estabilidade térmica reflete não apenas na temperatura, mas na experiência geral de uso. Assim como resolver problemas de rede exige decidir entre um sistema Mesh Wi-Fi ou um repetidor de sinal para eliminar o lag, eliminar o gargalo térmico exige o material correto. Não adianta querer apenas "refrescar" o processador; o objetivo é restaurar a condutividade original do projeto.

O que fazer se a troca de pasta não resolver?

Se, após realizar todo esse processo, a máquina continuar desligando, o problema provavelmente migrou para o cooler ou para a fonte de energia. Coolers a base de resenho (aquela poeira esponjosa) secam com o tempo, e a lubrificação do rolamento do eixo acaba, fazendo o cooler girar mais devagar do que deveria.

Outro ponto de atenção é o ambiente. Se o gabinete está em um armário fechado ou em um quarto sem circulação, o ar quente é reciclado pelo próprio cooler, criando um ciclo vicioso. Nada substitui uma boa fluxo de ar frontal (intake) e traseiro (exhaust). E, claro, se o PC estiver conectado à internet via cabo, vale a pena revisar a rede para garantir que o ping não esteja atrapalhando, talvez mudando o DNS para o Cloudflare 1.1.1.1 para reduzir a latência em jogos online.

O aprendizado principal aqui é não subestimar o poder de uma manutenção preventiva. A reciclagem de hardware antigo é viável quando entendemos como os componentes degradam. Aquele i7 que parecia morto voltou a rodar jogos modernos em 1080p sem travar, prova de que, muitas vezes, o que falta é apenas um pouco de pasta térmica e vontade de mexer nos parafusos.

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